Demiti o meu patrão

Sim, demiti porque ele roubava algo precioso de mim, tempo da minha vida particular!

Atuava na área Financeira e todo mês eu tinha uma desagradável experiência emocional chamada “fechamento”.   A equipe ficava até tarde no escritório reportando o resultado para a matriz da empresa que era uma multinacional.

Até tarde mesmo, virando a noite, lembro certa vez que ao finalizar o expediente e seguir para casa, era comum encontrar com a galera do rodízio chegando cedo para trabalhar.   Para quem não é de São Paulo, vale a explicação, dependendo do número da placa do seu carro você fica impedido de rodar após as 7h da manhã em determinado dia da semana.  Então era comum encontrar colegas chegando cedinho enquanto a gente estava encerrando o dia anterior.

A situação piorava quando tinha o fechamento do trimestre, semestre ou revisão do orçamento. Para meu alívio o time era de pessoas incríveis, trabalhamos 3 anos juntos de 2007 a 2009 tínhamos sinergia e sabíamos nos divertir com aquela situação dramática.  Alguns eu tenho contato até hoje.

Você pode estar pensando que era pura incompetência, mas não,  era falta de recurso mesmo. Fazíamos tudo “na unha” planilhas e mais planilhas com fórmulas mirabolantes e vinculadas entre si que dificultava o processo de apuração do resultado.

Sabe aquela história, a empresa vai crescendo organicamente, adquirindo outras e a área financeira permanece do mesmo tamanho e  sem investimento.  A gente tinha que se virar com o que tínhamos em mãos,  no caso era Excel.  Até que dávamos  conta do recado, mas era um processo recorrente, penoso, custoso, sofrível.

Eu não tinha vida social, não aceitava convites dos amigos, só queria ficar em casa dormir e descansar.  Tive problemas no casamento (óbvio) e depois de alguns meses nesse cenário acabei me separando, não só por esse motivo, mas foi um fator que contribuiu.

Um a bela manhã de verão, a rotina estava normal era dia de reportar o budget do ano seguinte e uma bobagem qualquer aconteceu, porém com o nível de insatisfação que eu estava aquilo foi um gatilho e teve o efeito da “gota d’água” e eu explodi.  Caí numa crise de choro.

Enquanto todos estavam indo almoçar  eu fui chorar no banheiro.  Recordando essa cena hoje vejo o quanto foi patético, eu sentada no vaso com a tampa fechada chorando em silêncio para não chamar atenção.  Uma pessoa que se atrasou para o almoço percebeu algo e perguntou “Tudo bem San?”  eu disse “Não, mas vai ficar” e foi ali naquele exato instante que resolvi pedir demissão, ou melhor, demitir o patrão da minha vida.

Eu sequer voltei para a minha mesa e nem fui almoçar, fiquei em outro andar na sala de reunião me acalmando, assim que minha gestora retornou do almoço eu a chamei e comuniquei minha decisão.

Todas as tentativas de me fazer mudar de ideia foram frustradas, aumento de salário, promessa de zerar o banco de horas,  férias de 20 dias, nada me seduziu pois a decisão não foi racional e de impulso, costumo dizer que foi uma decisão de alma, daquelas que a gente toma por inteiro e não tem a menor dúvida em reconsiderar.

Feito isso, engrossei as estatísticas de desemprego, mas nem sequer dei entrada no seguro desemprego, sabe por quê?  Uma série de fatos foram acontecendo e de forma mágica, estava empregada 2 meses depois.

Dizem que o universo conspira a favor quando você está em harmonia com seu propósito. Veja só os fatos que se sucederam após minha saída.

Recebi um telefonema (do nada) de um amigo me convidando para almoçar já que estaria próximo do meu trabalho, eu aceitei o convite e disse que poderia ser em outro local, pois não trabalhava mais lá. Fazia dois anos que não nos víamos, no papo do almoço aproveitei para contar melhor o que estava acontecendo comigo e porque resolvi sair do emprego e desejava fazer outra coisa, não queria trocar seis por meia dúzia.

Ele é profissional de RH e me disse “Sandra, acho que você está precisando de um coaching.” Eu não tinha a menor ideia do que ele estava falando,  lembrando que no ano de 2009 esse assunto era praticamente desconhecido. Ele me indicou três profissionais e eu fui atrás.  Optei pelo Coaching Biográfico baseado na Antroposofia.  Foi um divisor de águas para mim.

Eu entendi que deveria retomar uma área em que já havia atuado no início da minha carreira e que sempre gostei.  Treinamento e desenvolvimento de sistemas.  Arrumei um emprego que me proporcionou exatamente essa experiência, participei de um projeto grande na área de varejo em que implantamos módulos de um sistema e depois ministramos treinamento para os colaboradores de São Paulo e das demais regionais da empresa que atua em todo Brasil.

Foram anos felizes, eu finalmente retomei o prazer de trabalhar, o brilho no olho em executar uma função gratificante.

Eu aprendi com o coaching respeitar minha vocação e compreender que eu sou a capitã do barco do meu destino, qualquer desvio de caminho ao ser percebido, eu assumo o leme e corrijo a rota. Contando assim, parece fácil, mas não é, às vezes essa correção de rota pode levar tempo para você ter confiança e fazer o que deve ser feito. E eu fiz pelo menos 2 vezes na minha vida.

Hoje percebo que meu trabalho vai além do que montar didaticamente um curso, elaborar o material audiovisual e ministrar o treinamento.   Fazendo a ligação dos pontos  (como no famoso discurso de Steve Jobs http://bit.ly/1eOzk0geu liguei meus pontos 10 anos depois.

Trabalho com automação de planilhas e banco de dados,  facilito a vida de quem (como eu no passado), sofre construindo controles, indicadores, planilhas complexas.  O mercado pede fazer mais em menos tempo, aumentar a produtividade.  E eu atuo em uma empresa que tem essa filosofia.

É muito recompensador participar de um caso em que a pessoa perde muito tempo com a montagem das tabelas, controles, atualizações em um processo totalmente manual e a solução é automatizar essas rotinas de forma que ao pressionar botões de comando, o procedimento é disparado e em segundos o resultado está disponível para análise e tomada de decisão.  Ver o usuário vibrar com a entrega da solução é realmente gratificante.

Eu tive a audácia de demitir o patrão toda vez que o trabalho perdia sentido e propósito, foi difícil e eu sofri nessas situações, porém vejo que até mesmo  as experiências negativas me ajudaram a edificar a profissional amadurecida e com bagagem positivas e negativas.

Ainda sou capaz de virar a noite em um projeto se for preciso, porém o motivo pelo qual eu faria isso é diferente, seria por engajamento e comprometimento.

Forte Abraço

Sandra Bestechi Miguel

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *